Edição 2.765 - Ano XVIII - Fundadores: Otaciano Pereira e Irene Pereira -

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MEIO AMBIENTE

DESMATAMENTO E QUEIMADAS
Denúncia apresentada pelo Greenpeace mostra dados atuais

Falta de recursos compromete combate ao desmatamento

Odair Vales




IBAMA | Não tem recursos para evitar o desmatamento e a comercialização da madeira

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Greenpeace Brasil

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O esgotamento dos recursos disponíveis no Ibama para fiscalização ambiental pode levar a novo aumento do desmatamento e da atividade madeireira ilegal na Amazônia. Os R$ 28 milhões destinados este ano à fiscalização se esgotaram na semana passada. Outros R$ 8 milhões permanecem contingenciados e não podem ser gastos. No momento, 12 operações de fiscalização estão em curso na região e deverão ter sua continuidade comprometida. Novas operações não poderão ser realizadas.
A notícia chega exatamente no momento em que a exploração madeireira se intensifica e as queimadas na Amazônia aumentam em escala nesta época do ano.
A desobediência à legislação que proíbe as queimadas e a falta de recursos para o Ibama estão entre os fatos documentados pela expedição “BR-163 - Amazônia: Salvar ou Destruir?”, do Greenpeace. Os integrantes da expedição apresentaram hoje nove fotografias que demonstram a histórica ausência de governo na região da estrada, que liga Santarém a Cuiabá. A exposição foi colocada em uma praça no centro de Cuiabá, encerrando as atividades da expedição.
“A falta de recursos para o Ibama fiscalizar é um dos componentes da ausência de governo na região amazônica, que pudemos constatar em nossa expedição pela área de influência da BR-163”, afirma Nilo D’Avila, coordenador da expedição.
Os ativistas do Greenpeace partiram de Santarém no dia 27 de julho. Durante 23 dias, presenciaram a exploração madeireira sem controle, invasão de unidades de conservação, desmatamento ilegal, queimadas e destruição de castanhais nativos. “Infelizmente, o esgotamento dos recursos no meio do ano demonstra a falta de prioridade do governo Lula para a questão ambiental. Se o governo não se fizer presente imediatamente, corremos o risco de perder toda a floresta que ainda resta nessa região”, afirmou D’Avila.
Durante a expedição, o Greenpeace pôde constatar também uma queda na atividade madeireira, reflexo de medidas adotadas pelo Ibama e da Operação Curupira. “O fluxo de madeira ilegal caiu”, disse d’Ávila. “Isso demonstra que, quando age, o governo pode fazer diferença.”
O asfaltamento total da rodovia BR-163 é uma das obras prioritárias do governo Lula. Com 1.764 quilômetros de extensão, dos quais cerca de 900 quilômetros não pavimentados, a rodovia liga Cuiabá, capital do Mato Grosso, à cidade portuária de Santarém, no Pará.
Em 2002, a parte asfaltada da estrada no Mato Grosso tinha perdido 57% da cobertura florestal na faixa de 50 km de cada lado da estrada. No trecho paraense, não asfaltado, o desmatamento não passava de 9%. O Greenpeace acredita que, antes do asfalto, precisa chegar o governo.

Manejo da biodiversidade aquática
da Amazônia deve começar em 2006

RIO | Amazonas fará parte do projeto Aquabio

O projeto Manejo Integrado da Biodiversidade Aquática e dos Recursos Hídricos na Amazônia (Aquabio), que vem sendo concebido desde 1999 por ambientalistas hoje ligados ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), deve começar a ser executado em março de 2006. A informação é do gerente técnico do projeto, João Paulo Viana.
Segundo ele, o Aquabio terá seis anos de duração, vai se desenvolver nas bacias do Rio Negro, no norte do Amazonas, do rio Xingu, no norte do Mato Grosso, e do rio Tocantins, no Pará, e contará com US$ 7 milhões do Fundo para o Meio Ambiente Global. “A contrapartida são US$ 10 milhões do governo brasileiro, estimados a partir das ações previstas no Plano Plurianual (PPA) para essas três regiões”, disse Viana. No primeiro ano, será feito um diagnóstico detalhado das três bacias e das atividades desenvolvidas em cada município no qual será realizado o projeto. “Isso orientará as ações e investimentos dos cinco anos seguintes”, informou.
O projeto terá quatro componentes, com objetivos afins: Políticas Públicas Áreas Demonstrativas; Capacitação e Monitoramento e Avaliação.
“Começamos a idealizar o Aquabio ao mesmo tempo em que era concebido o ProVárzea. Tanto que optamos pelos rios que ficaram de fora dele: excluímos a calha do Amazonas e Solimões e pegamos apenas os tributários de águas escuras”, contou.
O Projeto Manejo dos Recursos Naturais da Várzea (ProVárzea/Ibama) faz parte do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, com recursos da cooperação internacional. O projeto teve início em 2000 e atua ao longo da calha do Amazonas/Solimões (Thaís Brianezi da Radiobrás).

Produtores indígenas vendem pela internet

A comunidade indígena Pamaáli, localizada no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), produz um tipo de cesta de fibra natural comercializada em todo o Brasil. Poucos sabem, no entanto, que os fabricantes da cesta recebiam apenas R$ 1, enquanto a cesta era vendida por R$ 60 nos grandes centros urbanos.
Hoje isso não acontece mais. Eles estão conectados à rede mundial de informações através de pontos de presença (PP) do Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac), programa do Ministério das Comunicações. “Com o Gesac essa comunidade começou a descobrir o valor de sua mercadoria e o atravessador desapareceu da vida da comunidade”, conta o diretor de inclusão digital do Ministério das Comunicações, Antônio Albuquerque Neto.
Presente em comunidades com baixo índice de desenvolvimento humano, o programa Gesac fornece conexão à internet, em alta velocidade e via satélite, e já atende a 4 milhões de pessoas em 3.200 pontos de presença espalhados pelo país.
Dos pontos de presença, 75% ou 2.400 estão instalados em escolas municipais e estaduais, 400 em postos militares, 100 no Programa Fome Zero e 300 em associações, sindicatos, organizações não-governamentais (ONGs) e telecentros.
Ele explica que o custo total do programa Gesac, para um período de 30 meses, é de R$ 110 milhões. Desse total, R$ 12 milhões foram investidos na compra de softwares livres. (Irene Lôbo para a radiobras).

Nutrição de quilombolas será investigada

Pela primeira vez na história o governo brasileiro investigará a situação nutricional das comunidades remanescentes de quilombos e dos povos indígenas. A iniciativa é do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e faz parte da segunda etapa da primeira Chamada Nutricional.
O Ministério do Desenvolvimento Social, em parceria com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) pretende acompanhar crianças em 34 distritos sanitários indígenas. A ação é apoiada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Fundação Cultural Palmares.
Segundo o secretário de Avaliação e Gestão da Informação do MDS, Rômulo Paes, há muito tempo se discute no Brasil a necessidade de se conhecer essas populações, muitas vezes consideradas “invisíveis”. “Nós estamos atrasados em fazer esse levantamento. Nós já devíamos tê-lo feito há muitos anos”.
De acordo com Paes, diferentemente do levantamento da primeira etapa da chamada, que será realizada em um único dia, esta pesquisa exigira mais tempo. “A estratégia de vacinação para essas comunidades é distinta. O semi-árido segue o padrão nacional, onde em um único dia se faz a vacinação de uma só vez. Para essas comunidades, devido a dificuldade, inclusive de acesso, a estratégia é distinta (Érica Santana da Radiobrás).

Ambientalistas voltam
a sofrer agressões

DOROTHY STANG | Cruelmente assassinada

Meses depois dos assassinatos de Dorothy Stang no Pará e de Dionísio Júlio Ribeiro Júnior, o Seu Júlio, no Rio de Janeiro, uma nova onda de agressões e ameaças contra militantes ambientalistas começa a se alastrar em várias regiões do Brasil. Nos últimos dias, foram vítimas de agressões físicas e/ou ameaças de morte o secretário-geral do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), uma dirigente da Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea) e os integrantes da caravana organizada pelo Greenpeace que percorreu a BR-163 (Cuiabá-Santarém). As agressões dirigidas aos ambientalistas estão inseridas no contexto de crise política que atravessa o governo do PT e coincidem com os ataques sofridos recentemente pelos movimentos sociais. Nessa nova ofensiva dos setores mais à direita da sociedade contra as entidades e seus dirigentes, os ambientalistas temem que novos assassinatos acabem ocorrendo.
Secretário-geral do GTA, membro da coordenação nacional do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável (FBOMS) e uma das figuras mais respeitadas do movimento ambientalista brasileiro, Adilson Vieira foi insultado, ameaçado de morte e agredido a pontapés na cidade de Humaitá (AM) durante um seminário sobre o desmatamento no Sul do Amazonas. O pecado de Vieira, que suscitou a ira de dezenas de fazendeiros de soja presentes ao evento, foi ter manifestado o descontentamento dos ambientalistas com a falta de transparência e participação social no projeto de pavimentação da rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho), mais um empreendimento de grande impacto ambiental no coração da Amazônia.
No dia 11 de agosto, Adilson Vieira foi agredido pelas costas pelo secretário de Produção e Abastecimento de Humaitá, Sérgio Colares, que o atingiu com um chute após proferir diversas ameaças de morte e ofendê-lo com palavrões. Colares fazia parte de um grupo de cerca de dez fazendeiros que, momentos antes, cercaram e xingaram Vieira após a falação do ambientalista ao microfone. O grupo estava acompanhado por outros fazendeiros e durante todo o seminário fez claque a favor da pavimentação da BR-319. O tamanho da ousadia dos agressores pode ser mesurado pelo fato de que, no seminário, estiveram presentes a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o governador do Amazonas, Eduardo Braga (PPS), e o prefeito de Manaus, Serafim Corrêa, entre outras autoridades.
Nenhuma delas foi testemunha das agressões a Vieira, que aconteceram na parte da tarde, quando as autoridades já haviam deixado o auditório da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) onde ocorreu o seminário. Segundo testemunhas, o clima de radicalização, no entanto, já era grande na parte da manhã, quando fazendeiros se revezaram ao microfone para “defender o desenvolvimento” e exigir a pavimentação da rodovia. A fala da ministra, defendendo a realização de estudos prévios de impacto ambiental, foi recebida pelos fazendeiros com uma reação que variou do silêncio constrangedor às vaias discretas, passando por expressões de desdém. Aplausos mesmo, só durante o solidário discurso do governador Eduardo Braga, que definiu os produtores de soja do Sul do Amazonas como “trinta e quatro famílias de brasileiros que apenas querem produzir e viver”.
Adilson Vieira conta que, apesar de se destinar a discutir medidas para combater o desmatamento no estado, o seminário, na prática, tornou-se uma mera solenidade de assinatura de atos e decretos do governo estadual: “A maioria desses decretos estava sendo assinado sem nenhuma discussão com a sociedade. Por isso, centrei minha intervenção nessa crítica”, disse. O encontro, segundo Vieira, parecia feito para a aprovação de medidas de interesse dos fazendeiros: “Esse setor está querendo aproveitar a crise política e a inoperância do governo nos últimos meses para dar um passo largo na direção do aumento do desmatamento e da expansão da soja na Amazônia”, avaliou.
Sem encontrar resistência no governo, esse setor, segundo Vieira, se sente fortalecido para intimidar e agredir aqueles que, como os ambientalistas, colocam-se no caminho de seus interesses: “A ofensiva já começou e é comum em vários pontos da floresta. O GTA tem recebido nas últimas semanas denúncias de comunidades no interior do estado do Amazonas que estão sendo ameaçadas e agredidas ou até mesmo já foram expulsas de suas terras”, conta. Vieira teme que novas mortes aconteçam: “Se a ousadia deles permite que façam o que fizeram comigo em pleno auditório da UEA, imagine o que esse pessoal faz contra gente indefesa no interior da floresta”. O ambientalista prestou queixa pela agressão na 4ª Delegacia de Polícia de Manaus e diversas entidades já enviaram cartas exigindo pedidos de desculpas de Eduardo Braga (Maurício Thuswohl da Agência Carta Maior).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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