Um grande rei ganhou de um amigo dois filhotes de falcão. Imediatamente
os entregou ao mestre encarregado da criação desses pássaros para que,
depois de crescidos e adestrados, servissem durante as suas aventuras de
caça. Depois do tempo necessário, o mestre comunicou ao rei que um dos
dois falcões estava perfeitamente pronto para as caçadas.
– E o outro? – perguntou o rei.
– Lamentavelmente o outro tem um jeito meio esquisito. Talvez tenha
alguma doença rara que não conhecemos: nunca sai do galho da árvore onde
foi colocado desde os primeiros dias. Nós mesmos temos que levar comida
para ele.
O rei convocou os melhores veterinários, médicos e curandeiros do reino,
mas ninguém conseguiu fazer com que o falcão saísse do lugar. Generais,
conselheiros da corte e cientistas tentaram também, mas o falcão
continuava firmemente empoleirado no galho. Dia e noite, o rei o olhava
pela janela e o via imóvel, sempre no mesmo lugar. Finalmente decidiu
pedir ajuda aos súditos do seu reino: qualquer um podia sugerir um
remédio.
No dia seguinte, ao abrir a janela do seu quarto, viu o falcão voar
majestosamente pelo jardim. Logo quis saber quem era o autor do milagre.
Apresentaram ao rei um jovem camponês.
– Você conseguiu fazer o falcão voar, como fez isso? Tem alguma mágica no meio?
- Não - respondeu timidamente o jovem – simplesmente cortei o galho
onde o falcão estava parado. Assim ele percebeu que tinha duas asas e
começou a voar.
Se fosse tão simples assim tirar todos os preguiçosos e acomodados dos
seus lugares seria bom demais. No entanto a historinha permite que nos
aproximemos um pouco mais da comparação que Jesus faz, no evangelho
deste domingo, entre ele, o Pai, a videira, os ramos e a vida dos
cristãos.
Em primeiro lugar, devemos distinguir entre a poda e o corte. Jesus diz
que o ramo que não produz fruto é cortado. O ramo seca e serve apenas
para alimentar o fogo. Diferente é o que acontece com a poda: o ramo que
produz fruto é podado, justamente, para que produza mais fruto. No caso
da videira, todo agricultor sabe que a poda é absolutamente necessária
para que haja uma boa produção de uva gostosa. Se não houver poda, a
energia vital do tronco da videira se dispersa nos muitos ramos, e a
produção fica escassa.
Entendendo a comparação, a poda em si é um sofrimento necessário para
que a árvore produza cada vez mais e melhor. Podemos resumir o
ensinamento de Jesus em poucas palavras: os ramos devem aceitar ser
podados e limpos pelo Pai, que é o agricultor, mas somente conseguem
produzir bons frutos os cristãos que ficarem unidos a Jesus, o tronco da
videira.
Mais uma vez Jesus nos lembra da necessidade de caminharmos juntos com
ele; de acreditarmos na unidade como primeiro, mais visível e, talvez,
mais valioso fruto de quem quer pertencer ao grupo dos seus seguidores.
Naquela mesma noite em que Jesus pronunciou as palavras do evangelho
deste domingo, deixou também o mandamento do amor – será o evangelho do
próximo domingo – e rezou muito pela unidade dos seus amigos. Amor e
unidade andam juntos. A divisão pode não significar ódio entre as
pessoas, mas, com certeza, é o resultado da indiferença e do
desinteresse de uns para com os outros.
Toda separação e divisão são o contrário do amor. Este pede aproximação,
alegria e desejo de estar juntos. Onde tem amor e unidade também tem a
preocupação com quem não está presente, percebe-se a sua falta, nasce o
desejo de não perder ninguém. Amor e unidade são frutos bons,
agradáveis, mas só acontecem se todos continuam unidos ao tronco que é
Jesus. É nele e com ele que se faz unidade e é possível aprender a amar
de verdade. Quando prevalecem os individualismos, os interesses
particulares, as disputas pelo poder, o resultado é divisão e mais e
mais confusões. Nenhuma divisão produz frutos bons e úteis para todos.
Podem ser bons para alguns, mas não o são para os outros. Podem dar
alegria para alguns, mas nunca para todos.
Por isso os cristãos devem aceitar também a poda, para que a unidade e o
amor cresçam: é a poda do nosso orgulho pessoal; de querermos ser os
únicos possuidores da verdade; da vontade de humilhar os outros; ou de
fazer as coisas cada um por sua conta. Muitas podas são necessárias para
chegar à unidade, mas vale a pena. Quando uma família, um grupo, uma
comunidade, uma paróquia, uma diocese, a Igreja toda vive unida, tudo se
torna mais fácil. As forças se somam, as iniciativas alcançam os
objetivos, o amor se multiplica. Somente o amor atrai. A divisão afasta
porque cria partidos, disputas e controvérsias. Quem está bem acomodado
no seu galho, achando que o mundo todo gira ao seu redor e não move um
passo para a unidade e a colaboração, acaba isolado e produzindo muito
menos bondade do que pensa. Está na hora de cortar o galho para voar
junto com os outros.
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