A finalidade de toda e qualquer forma de governo é o direcionamento do Estado que ele representa, isto é, o seu empenho precisa, pelo menos em tese, está atrelado à condição de prover, gerar e manter o bem comum. Logo, as condições sociais para a instauração da felicidade coletiva, devem, em última instância, ser a tônica de qualquer gestão legítima, legale moralmente instituída.
Portanto, não se pode, de maneira nenhuma, tratar a função de governar, como uma extensão vaidosa, arrogante e desrespeitosa para com aqueles sujeitos a gestão pública, em um tipo de institucionalização da irresponsabilidade, que pode ser tanto de ordem social, quanto política, econômica e institucional. Porquanto, cabe a quem se delega a administração pública o compromisso solene – assumido a partir da eleição e, consequentemente, da diplomação – com os seus eleitores e a representatividade vinculada ao cargo que ocupa, onde cada ato deve prescindir da inalienável anuência do votante; sem o qual toda decisão perde seu valor moral intrínseco.
O que se espera daquele que exerce as funções, atribuições e incumbências de administrar as demandas coletivas, especialmente no âmbito do Estado, é justamente sensibilidade, competência e agilidade para resolver as questões que, eventualmente possam, de um jeito ou de outro, comprometer a qualidade de vida do cidadão comum. O mesmo que paga compulsoriamente uma extensa carga tributária que, grosso modo, não vê revestido em melhorias sociais, mas sim em razões antiéticas para o enriquecimento ilícito e fraudulento de alguns. É como se os cofres públicos fossem o pote de ouro no fim do arco-íris, só esperando para ser encontrado e despojado de seu valor real, concreto e simbólico. Por isso, a concepção que se tem de gestão político-pública é a marca indelével da corrupção, indiferença e desmando. Aliás, fugir a este estereótipo parece ser algo impossível, sobretudo pela imperícia política da maior parte da população, quando delega irresponsavelmente parte de sua soberania individual a outra pessoas, assinando uma procuração em braço para alguém, de maneira absurdamente arbitrária, gerir o seu bem mais precioso: a liberdade de escolha.
Nenhum governo nasce como carapaça incrustada ao exosqueleto daquele que exerce a gerência coletiva, mas enquanto prerrogativa fundamental para se atingir a realização plena do cidadão, se é que isso é possível, no âmbito de sua realidade diariamente vivida e justaposta às mazelas, dificuldades e estranhamentos da vida ordinária. Por esta razão, é inconcebível a indiferença (ataraxia), imperturbabilidade, ou mesmo omissão, ante a necessidade urgente do homem comum, principalmente em relação aquele sujeito responsabilizado pela boa condução do Estado. Pois o maior imperativo que deve ser horado pelo indivíduo escolhido para governar é a satisfação dos governados, ainda que isso o prive de seu impuro desejo de oprimir, simplesmente partindo do princípio enganoso de que sua função o faz superior aos outros, num devaneio tolo que caracteriza os bobos de uma corte que se deleitam com a sua própria ridicularização, enquanto estupidamente alimentam a vaidade roubada pelo medo de não serem nada além de meras e toscas lembranças difusas e corruptas, típicas de uma gestão doente. Para a jurista Maria Paula Dallari Bucci: “onde a cidadania é incipiente, se as leis e as instituições não forem especialmente boas, todo o conjunto atuará sem sentido evolutivo, desordenadamente”.
Nesse sentido, a força de movimentos sociais como o movimento grevista dos professores da rede pública de ensino, se faz necessária, mas não suficiente (a participação cabe a todos os setores da sociedade), na perspectiva de meio de contestação dos mandos e desmandos que, de certo modo, norteiam às práticas políticas da administração governamental no cenário político brasileiro, lesando o homem cívico em suas atribuições cidadãs, fazendo-o mera marionete nas mãos sujas de alguns imundos desalmados. Desse modo, acaba sendo institucionalizada a apreensão da realidade coletiva caotizada, na configuração ilegítima de uma delegação e definição privada ordenada, onde a prioridade se da para as aspirações de quem exerce o poder de mando, cabendo aos demais apenas a subserviência, legitimando-a pela omissão voluntária, para o confortável status do gestor inebriado com o glamour da sua própria arrogância. Portanto, há uma moral dizimando o homem (sob a égide de um governo antiético), imoralizante e imoralizada pelo descompromisso que emperra as ações visandoà melhoria da qualidade de vida da população, na qual as condições de sobrevivência negam toda e qualquer possibilidade de paridade, enquanto o povo circunscreve, em ato de extrema ignorância, seu espaço de convivência e alienação. Por isso, um quadro de verdadeira gestão se instaura com participação popular efetiva. Ai residiria à nobreza de um povo que zela por si mesmo.
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