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Jornal do Dia - O beijo

Por Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

Enviada em 24/06/2012 às 14:25:52
O beijo
Um casal de idosos tinha cinquenta anos de casamento. Muitos anos juntos. Casa, trabalho, filhos e netos. Agora, vivendo o tempo da aposentadoria, estavam sentados num banco da estação, esperando a chegada do trem. No banco da frente deles, um casal de jovens namorados se abraçava com carinho. Os dois idosos olhavam tudo em silêncio. Os dois jovens começaram a se beijar. A senhora idosa, procurou levemente a mão do marido e, com um sorriso luminoso, disse-lhe:
- Você poderia fazer o mesmo.
- O quê? Está louca – respondeu o marido – eu nem a conheço!
O marido não entendeu ou fingiu não ter entendido. Deixemos de lado a brincadeira e falemos de São João Batista, pois neste domingo celebramos a solenidade do seu nascimento. Lembrar a criança e as circunstâncias do seu nascimento, no entanto, significa também lembrar os pais idosos: Zacarias e Isabel. Os encontramos no início do evangelho de Lucas e, como bem sabemos, a simplicidade da narração revela uma grande mensagem.
Apresentando a gravidez inesperada de Isabel, o evangelista quer nos preparar a acolher o mais surpreendente de tudo: a gravidez de Maria, mãe de Jesus. As palavras-chave são aquelas do anjo à Maria: “Para Deus nada é impossível” (cf. Lc 1,37) e a pergunta que o povo se fazia a respeito de João: “Que vai ser deste menino?” (cf. Lc 1,66). Os acontecimentos são sinais do amor de Deus que quer manter viva a esperança do povo porque algo de maior ainda está para acontecer: chegou a plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4).
Maria, José, Zacarias, Isabel e, mais tarde, também os pastores que, alegres, irão a Belém para encontrar o recém-nascido Salvador, representam os chamados “pobres de Deus”, isto é, os humildes que esperavam ansiosos e confiantes a chegada do Messias.
Os primeiros capítulos do evangelho de Lucas antecipam o drama da acolhida e da rejeição de Jesus. Por que os pobres e os pequenos – os humildes – conseguem vibrar com o nascimento de João e, depois, com o de Jesus? Por que Deus, com eles, consegue fazer maravilhas e eles enxergam a novidade, acreditam, adoram e se rejubilam? Justamente porque são “pobres”. Eles não estão apegados a outras riquezas, não têm nenhum poder ou posição humana privilegiada para defender. Eles confiam totalmente e unicamente em Deus. Foi muito diferente para os Herodes, os grandes e os poderosos de todos os grupos do tempo de Jesus. Eles ficaram com medo, primeiro do menino Jesus e depois do profeta que vinha do Norte. Segundo eles, Deus não podia estar do lado de quem mostrava misericórdia, curava os doentes, saciava os famintos, consolava e perdoava os pecadores. Se Deus era Pai, que salvava por amor como ele ensinava, quem teria mais acreditado numa salvação que vinha da obediência rigorosa à Lei?
 Já conhecemos o final da história de Jesus. Voltamos a Zacarias e Isabel, os dois pais idosos. Talvez para Maria, muito mais jovem, ter sonhos e esperanças era normal. Talvez todas as moças sonhavam em ser, um dia, mães do Salvador. Mas para os dois “velhos”, tinha sentido ainda “sonhar”, aceitar fazer parte da novidade que estava para acontecer e acreditar que João, o filho inesperado, “dom de Deus” - como diz o nome dele – ia preparar os caminhos para o Messias? Difícil acreditar. No entanto foi isso que aconteceu. As promessas de Deus se realizam sempre para quem acredita e nunca perde a esperança, porque sabe em quem confiou.
Por isso, admiro as pessoas idosas que rezam e participam da própria comunidade. Admiro-as quando falam de Deus aos mais jovens e parecem enxergar e viver as histórias que contam. Admiro-as quando continuam olhando para frente, não mais com a esperança nas coisas humanas, mas já vislumbrando as coisas do alto. Admiro-as quando não parecem estar cansadas como quem chega ao final de uma caminhada, mas animadas como quem está no início de uma nova aventura.
Neste domingo, vamos dizer muito obrigado aos zacarias e às isabeis presentes em nossas famílias e em nossas comunidades. Muitas dessas pessoas continuam, ainda hoje, a serem “pais e mães” de tantos joõesinhos. Todos nos ajudam a acreditar em Deus e a esperar por Ele. Merecem um grande beijo.
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