No dia 6 de janeiro de 1981, em Macapá, um número considerável de pessoas se preparava para o retorno das férias e das festas de final do ano tendo como destino a cidade de Monte Dourado, no Estado do Pará, onde se concentrava um grande número de trabalhadores da empresa Jari Celulose.
Essa viagem de volta seria feita pela embarcação da linha, o Barco Motor Novo Amapá,
com capacidade para 400 passageiros, construído em madeira no formato e designe próprio da região amazônica, distribuído em andares, cada um em nível diferente do outro.
Calculado pelos passageiros para ser um retorno tranquilo considerando que a rota e as condições da viagem já eram bastante conhecidas por muitos dos passageiros que já se acostumavam a realizar a viagem. Navegar naquela rota, na opinião da maioria, não havia qualquer perigo ou motivo de preocupação.
Entre os passageiros não havia apenas trabalhadores retornando de férias, mas, devido as férias, muitos dos familiares acompanhavam esses trabalhadores, aproveitando para conhecer o local onde trabalhavam os chefes das famílias. Misturavam-se, entre os passageiros: turistas, crianças com seus responsáveis, e os tripulantes da embarcação que se desdobravam para resolver os problemas que apareciam.
As condições de tráfego fluvial naquela época eram praticamente as mesmas das de hoje e a fiscalização portuária muito precária, ou mesmo, inexistente.
“Mais de 20 anos após a tragédia do Novo Amapá, que naufragou na foz do Rio Cajari (...), a população ainda sofre com as más condições dos transportes fluviais no Estado. Nem mesmo o passar dos anos foi capaz de apagar as lembranças da maior tragédia já ocorrida nas águas da Amazônia, que deixou mais de 300 mortos e 70 desaparecidos (TEIXIERA, 2003, p. 03).
A viagem e o naufrágio. A partir do Porto de Santana, o Barco Motor Novo Amapá iniciou a viagem de forma aparentemente tranqüila. Muito embora, alguns passageiros, já nos momentos iniciais da viagem sentiram que algo estava errado, pois a embarcação não conseguia uma velocidade constate e nem o equilíbrio, tombando levemente, de um lado para o outro, fato que assustava vários dos passageiros.
Relatos da época a respeito dos momentos que antecederam o naufrágio, dão conta de que a situação no interior da embarcação era, entretanto, muito tranqüila e ninguém mostrava-se preocupado com a situação.
Um dos tripulantes de nome Luiz Antônio (que sobreviveu ao acidente), que trabalhava como estivador no barco, diz que “o motivo do acidente foi a correnteza forte da região, a ponto de colocar em risco a estabilidade do barco e o risco dele virar”.
Para alguns que acompanharam o que aconteceu em 1981, não há dúvida de que o reduzido número de embarcações fazendo aquela “linha” para o vale do Jarí e a ambição de dos proprietários dos que faziam essa “linha”, contribuíram para a superlotação do Barco Motor Novo Amapá.
Passava de oito da noite daquela segunda-feira, dia 6 de janeiro, quando o Barco Motor Novo Amapá naufragou próximo de Belém do Cajari, uma localidade que viraria referência para os sobreviventes da tragédia.
De acordo com esses sobreviventes, apesar da superlotação da embarcação e de alguns tombos do barco durante a viagem até aquele ponto, tudo parecia normal. Após o jantar muitos passageiros recolheram-se aos camarotes, enquanto a maioria espalhava-se em redes ou ficavam sentados pelos tombadilhos da embarcação.
De repente, “em uma fração de segundos” conforme narra um dos sobreviventes, o barco tombou para o lado esquerdo e não voltou mais, naufragando. O Barco Motor Novo Amapá, virara completamente.
Com a quilha para fora e o casco como um chapéu, as dificuldades para os passageiros saírem da embarcação aumentaram. Houve pânico. Gente se afogando, aos gritos pedindo socorro e querendo socorro. Os homens mais fortes, aquele que sabiam nadar, desdobravam-se em esforços querendo a todos salvar. Muitos deles morreram nessa luta pois os que socorriam imaginavam que podiam ser seu parente próximo, disse um dos sobreviventes.
O pós naufrágio. Apesar dos repetidos relatos sobre o pós-naufrágio, ainda há muita coisa a ser esclarecida, pois muita coisa continua controversa.
O sentimento, envolto em muita emoção espalhou-se pela cidade, depois que as notícias confirmavam o grande número de mortos e as condições em que se encontravam. Um estado de comoção se instalou na cidade de Macapá e em Santana. Aqueles que sabiam que um parente, ou vários parentes, estavam na embarcação entravam em desespero.
Koury descreve
o momento assim:
“O luto, diferente da noção de perda, parece possuir um sentido mais integrativo, ligado ao processo de reintegração do indivíduo à sociedade, através da internação da perda. A perda, por sua vez, parece informar o sentimento imediato provocado pela ausência ou desaparecimento da pessoa querida, recusando a aceitar o fim (2003: p. 115).
O sentimento de luto pelas perdas humanas havidas no naufrágio do Barco Motor Novo Amapá, ainda continuam na alma de muitos cidadãos e cidadãs que acompanharam e sofreram com a tragédia. Durante o período do naufrágio e, mesmo agora, vinte e nove anos depois, são quase nulas as iniciativas das autoridades para aliviar o sentimento de tristeza de todos e o sofrimento dos parentes dos mortos e desaparecidos.
Cidade de Óbidos VI. As cinco horas da manhã do dia 26 de janeiro de 2002, domingo, o Barco Motor Cidade de Óbidos VI, com 107 passageiros, chocou-se, de frente, com a proa da balsa de ferro, própria para transporte de gado, que navegava sem luz acesa, no extremo sul do Amapá, na localidade de Alegre, região do município de Vitória do Jarí, naufragando e deixando sete mortos.
Naquela época, o Jornal Estado de São Paulo deu a notícia da seguinte forma: Encontrados corpos de vítimas do naufrágio no Amapá. Foi encontrado, hoje pela manhã, o corpo da jornalista e publicitária Simone Teran que viajava no barco Cidade de Óbidos que naufragou ontem, no rio Jarí, ao sul do Amapá. Também encontrado o corpo do empresário Victor Santos, assessor do ex-governador Annibal Barcellos.
Ainda estão desaparecidos Carina dos Santos, Luan Richard, Arquimedes Afonso, Cláudia Colares dos Santos e Alexandre Junior.
Já está em Macapá o corpo do empresário Victor Santos, que chegou à capital às 12h20 (13h20 horário de Brasília), num avião bimotor pilotado pelo seu filho Victor Júnior.
Junior, que estava no local do naufrágio desde ontem, contou que no momento em que o barco colidiu com a balsa, seu pai caiu e bateu a cabeça, desmaiando com o baque e caindo no porão do barco.
Victor Santos assessorou por muito tempo o ex-governador Annibal Barcellos (PFL). Durante o governo Barcellos foi diretor do Departamento de Transportes Aéreos do Governo do Amapá. Por várias vezes tentou um mandato político, concorrendo ao cargo de vereador e de deputado estadual, mas não conseguiu se eleger. Ultimamente, ele ocupava o cargo de assessor especial do prefeito de Santana Rosemiro Rocha (PFL) e fazia parte do grupo que apóia a candidatura da deputada federal Fátima Pelaes (PSDB) ao governo do Amapá.
Está prevista para o final da tarde de hoje a chegada do corpo da jornalista e publicitária Simone Teran, mulher do deputado estadual Manoel Brasil (PL). O Sindicato dos Jornalistas mobilizou a categoria para receber no aeroporto de Macapá o corpo da jornalista e fazer um grande cortejo até o local do velório.
Simone Teran tinha 27 anos. Ainda adolescente deu os primeiros passos no jornalismo fazendo parte da equipe que editava o jornalzinho interno do Lions Clube de Macapá. Em 1990 ingressou no jornal Amapá Estado. Logo se destacou como uma das melhores repórteres, o que lhe valeu um convite da TV Amapá (afiliada da Rede Globo). Em pouco tempo Simone Teran já era chefe de jornalismo e apresentadora do Bom Dia Amapá. Mais tarde transferiu-se para a TV Marco Zero (afiliada do SBT) onde exerceu o cargo de chefe de jornalismo. Depois, decidiu abrir uma empresa de publicidade. Apesar de ter optado pela publicidade, Simone Teran mantinha uma coluna social no jornal Diário do Amapá. Ela estava no barco fazendo filmagens para a deputada federal Fátima Pelaes.
Sobreviventes do naufrágio contam que na hora do acidente Simone Teran conseguiu com sua câmera pular do barco para a balsa. E da balsa ainda ficou fazendo imagens do acidente. “Acho que ela escorregou e caiu no rio”, disse o ex-presidente da Federação das Indústrias do Amapá, Rodolfo Juarez, um dos sobreviventes do naufrágio. “Vimos ela na balsa filmando tudo de repente ela sumiu”, contou.
Simone Teran namorava há cerca de 10 anos com o deputado estadual Manoel Brasil (PL), com quem tem uma filha de quatro anos chamada Emanuelle.
O barco Cidade de Óbidos VI que levava para o município de Laranjal do Jari a deputada federal Fátima Pelaes (PSDB), pré-candidata ao governo do Amapá e cerca de cem passageiros entre eles deputados federais, estaduais, vereadores, prefeitos e simpatizantes de sua candidatura naufragou na madrugada de ontem ao bater em uma balsa que estava parada no rio sem qualquer sinalização.
Da lista de desaparecidos não consta nenhum político, mas assessores e seguranças. Para ajudar no resgate dos corpos, o governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), está mandando uma equipe de mergulhadores para o local.
No final do ano. Um Barco Motor Almirante Barroso, naufragou com mais de 100 pessoas a bordo, dos quais 97 sobreviveram. 14 corpos já foram resgatados e uma pessoa está oficialmente desaparecida.
O Almirante Barroso naufragou na noite da última segunda-feira (21), no rio Amazonas, entre o distrito de Monte Dourado, em Almerim, e Prainha, com destino a Santarém, na região do Baixo Amazonas. A colisão com um banco de areia, somada ao excesso de passageiros e de cargas, teria sido a causa do naufrágio.
Segundo o Corpo de Bombeiros, apenas Edna Palheta Viana é considerada desaparecida. O comandante do barco, Raimundo Duarte Maciel, foi preso e indiciado por homicídio doloso.
O Almirante Barroso já foi removido do local do acidente, no dia 26 de dezembro.
VÍTIMAS FATAIS
1- Neuzilene Tavares de Oliveira - Professora
2- Eronildo João das Chagas
3- Jennifer Oliveira Chagas - Criança,
4- Rosana da Silva Batista
5- Felipe Silva dos Santos - Criança,
6- Jenifer Pires Manfredine
7- Francileuza de Sousa Ferreira, Santarém
8- Daniele Jackeline Vieira Dias
9- Geovane Mendes - Mestre de máquinas da embarcação
10- Raimundo - Auxiliar de Máquinas
11- Silvaney Luís Moreira do Nascimento
12- Cleidiane Pereira Pires
13- Maria Charlene Chaves Pimenta da Silva, Mojuí dos Campos, Santarém
14- Renan Silva de Oliveira, Criança, Novo Progresso
DESAPARECIDA
- Edna Palheta Viana
Outros registros. B/M CIDADE DE DEUS (29/06/81), com 30 mortos e 7 desaparecidos; B/M SOBRAL SANTOS II (19/09/81), com 53 mortos; B/M PÉROLA DE SOURE, com 3 mortos e 1 desaparecido; B/M AIRES DA COSTA (09/02/84), com 6 mortos; B/M JULU (06/04/84), com 29 mortos e 6 desaparecidos; B/M NOSSA SENHORA DA GUIA (05/07/84), com 21 mortos; B/M CASEMIRO BELTRÃO (14/08/84), 9 mortos; B/M CISNE BRANCO DE CHAVES (25/08/85), 3 mortos; B/M DEUS ME AJUDE (12/02/85), 8 mortos; B/M EMPESCA XXII (11/01/86), 4 mortos; B/M MIRIENSE (27/04/86), 5 mortos; B/M TERNURA (11/08/86), 19 mortos; B/M CAPITÃO GANCHO (19/03/87), 4 mortos; B/M CABOCLA (08/07/87), 4 mortos; B/M PODEROSO (7/12/87), 4 mortos; B/M CIDADE PRESÉPIO (31/12/87), 4 mortos; B/M CORREIO DO ARARI (15/7/88), 56 mortos; B/M SANDRO (15/06/89), 3 mortos; B/M BONECA DE ITAITEUA (07/09/90), 5 mortos; B/M COMBOIO INTEGRADODA REICON (10/12/91), 7 mortos; B/M VAMP (20/11/93), 2 mortos; B/M SÃO BENEDITO (31/07/94), 7 mortos; B/M COMANDANTE ROGÉRIO (10/02/95), 40 mortos.
Esse levantamento foi realizado por MOREIRA e publicado em 1997, retratando o levantamento até 1995. Está colocado nessa matéria para servir de exemplo, pois, apesar de todos esses números, pouco o nada mudou no transporte fluvial de passageiros pelos rios da Amazônia.
Estudo científico. As então acadêmicas do Curso de Jornalismo da Faculdade SEAMA, no Estado do Amapá, Adailsa Rodrigues Vasconcelos, Cledildes Palmeirim Barbosa e Juliana Dulce Soares Picanço, realizaram o Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismos analisando a tragédia do Novo Amapá.
O título que identifica a obra é “Tragédia e dor nas águas amapaenses: um relato documental sobre o naufrágio do Novo Amapá”. Dividida em duas partes, a obra consta de uma primeira parte em texto e uma segunda parte em vídeo, muito importantes para a documentação daquele momento da história do Amapá.
As imagens que constam do vídeo são chocantes e os relatos, muito tristes de parentes e sobreviventes, emocionam.
Poema aos mortos. O poeta Paulo de Tarso também faz o registro daquele episódio em forma de poema. Com o título “Poema aos mortos” o lamento de Paulo de Tarso se confunde com a tristeza dos parentes que choram os que morreram naquela noite nas águas do Rio Cajari, quando iniciava o ano de 1981.
Paulo de Tarso fala na estrofe final do seu poema: “comboio de corpos inchados/ boiaram nas águas e foram mostrados / ao público através das câmeras de TV. / Soldados do 3º BEF ajudaram no resgate / e no enterro das vítimas, / entregue à terra diante dos parentes infelizes, / consolados pelos vigários italianos / que rezavam pelas almas daqueles afogados.”