Cultura

Não se deve idolatrar o dinheiro, diz o papa





O papa Francisco falou sobre a importância de dar “bom uso” ao dinheiro para não o idolatrar nem permanecer escravos dos bens materiais.

“A Bíblia não demoniza o dinheiro, mas nos convida a usá-lo corretamente, a não ser escravos dele, a não o idolatrar, não é fácil”, disse o papa ao receber uma delegação da receita federal italiana nesta segunda-feira, no Vaticano.

Francisco disse que na Bíblia existem diferentes referências ao pagamento de impostos e destacou o exemplo de Zaqueu e de são Mateus no Evangelho.

Por um lado, o papa destacou que o Evangelho de São Lucas (Lc 19,1-10) descreve o escândalo causado pela conversão de Zaqueu quando encontrou Jesus Cristo em Jericó e acrescentou que este episódio descreve "a conversão de um o homem que não só reconhece o seu próprio pecado de ter defraudado os pobres, mas sobretudo compreende que a lógica de acumular para si mesmo o isolou dos demais. Por isso, devolve e compartilha. O amor gratuito de Jesus lhe tocou o coração quando quis ir diretamente para a sua casa”.

Além disso, o papa recordou a vocação de são Mateus (Mt 9,9-13), que foi representada em um quadro famoso do pintor italiano Caravaggio que "imortaliza o momento em que Jesus lhe estende a mão e o chama"

“A partir desse momento, a vida de Mateus não é mais a mesma: é iluminada e aquecida pela presença de Cristo. E às vezes, quando rezamos ao Senhor para tomar uma decisão, pedimos a graça de nos iluminar – e devemos fazer isso sempre– mas nem sempre pedimos a outra graça: que nos aqueça o coração”.

Segundo o papa, “uma boa decisão precisa de duas coisas: uma mente clara e um coração cálido, aquecido pelo amor”.

"Talvez Mateus tenha continuado usando e administrando os seus próprios bens, e talvez os dos outros, mas certamente com uma lógica diferente: a do serviço aos necessitados e a da partilha com os irmãos, como o Mestre lhe ensinou", disse.

Ao falar sobre o dízimo, o papa explicou que para os levitas “serviu para amadurecer duas verdades na consciência do povo: a de não ser autossuficiente, porque a salvação vem de Deus; a de sermos responsáveis ​​uns pelos outros, começando pelos mais necessitados”.

Em seguida, Francisco destacou em seu discurso a importância dos princípios de legalidade, imparcialidade e transparência, que são uma bússola valiosa.

Quanto à legalidade, o papa disse que é fundamental porque "a legalidade protege a todos" e explicou que "os impostos são um sinal de legalidade e justiça" porque "devem favorecer a redistribuição da riqueza, protegendo a dignidade dos pobres e dos últimos, que estão sempre em risco de serem esmagados pelos poderosos”, pois “quando os impostos são justos, são para o bem comum”.

Por fim, o papa lamentou “os casos de evasão fiscal, pagamentos ilícitos e ilegalidade generalizada” e destacou que há também “a honestidade de muitas pessoas que não se esquivam de suas obrigações, que pagam suas dívidas e assim contribuem para o bem comum. O flagelo da evasão é respondido pela simples retidão de muitos contribuintes, e este é um modelo de justiça social”.

“Que são Mateus os cuide e apoie o seu compromisso com o caminho da legalidade, imparcialidade e transparência. Não é fácil, mas vocês podem nos ensinar isso: trabalhem para que todos o entendamos. Isso é importante”, concluiu o papa.


Confira outras notícias 

- Mensagem do Papa pelos 800 anos da Catedral de Cosenza

Num artigo, L'Osservatore Romano relata o desejo do Papa por aqueles que frequentam e visitam a antiga igreja calabresa, que remonta às primeiras décadas do século XIII, para que possam redescobrir o desejo de Deus e o vínculo com suas próprias raízes.

Enzo Gabrieli

O Papa Francisco enviou ao arcebispo italiano de Cosenza-Bisignano, dom Francescantonio Nolè, nesta segunda-feira (31/01), uma mensagem por ocasião dos 800 anos da Catedral de Cosenza. O texto papal servirá de guia para o ano jubilar, durante o qual os fiéis poderão obter a indulgência plenária concedida pela Penitenciaria Apostólica. Na mensagem, o Papa Francisco pede uma missão renovada rumo às periferias existenciais.

Segundo o jornal da Santa Sé, L'Osservatore Romano, com a abertura da Porta Santa e a celebração eucarística presidida pelo núncio apostólico na Itália, dom Emil Paul Tscherrig, teve início o ano jubilar pelo oitavo centenário da consagração da catedral de Cosenza. Era 30 de janeiro de 1222 quando, na presença do imperador Frederico II, o legado pontifício Niccolò de Chiaramonti, cardeal bispo de Frascati, dedicou a nova igreja reconstruída após o terremoto de 1184. O arcebispo Luca Campano a quis e a seguiu pessoalmente, e era o escrivão do abade Gioacchino da Fiore. Nas linhas artísticas gótico-medievais emerge tanto a sobriedade monástica quanto a força da luz do pensamento florense.

Em sua mensagem, o Pontífice destaca que "orgulhosa do tesouro de arte e história que possui em sua antiga catedral, Cosenza dá graças a Deus pelo bem que irradiou do templo ao longo dos séculos e, ao mesmo tempo, sente-se encorajada a renovar, a partir da força motriz da vida diocesana, o desejo da missão e do testemunho de Jesus ao homem de hoje, em cada ambiente em que vive, com particular atenção às periferias existenciais "e recordando a figura de Cristo, convida o povo de Cosenza a olhar a beleza do templo para reviver" em quem a frequenta e visita o desejo de Deus, o vínculo com as próprias raízes e a coesão entre os membros da comunidade". Recordando o caminho pastoral e histórico da Igreja de Bruzia, o Pontífice prestou particular atenção também à Universidade da Calábria por uma pastoral universitária onde se construa sinergia e aliança entre evangelização e cultura para itinerários educativos que favorecem "o bem comum, a promoção da justiça social, da legalidade e da dignidade humana".

O metropolita de Cosenza-Bisignano, que simbolicamente passou pela porta da igreja matriz com o antigo relicário doado por Frederico II, recordou que o verdadeiro tempo de graça exige o seguimento de Cristo "que é a porta e o caminho da salvação. Queremos acolher o convite do Papa para nos fazer peregrinos em direção ao homem e às periferias existenciais", acrescentou, "saindo do templo depois de ter entrado nele e experimentado o seu amor e sua misericórdia. Este oitavo centenário não é apenas um momento de celebração, mas um anúncio de esperança para a nossa terra ferida por tantas dificuldades e que deseja retomar o caminho após a grande virada de época dramática da pandemia". Mesmo as instituições civis que participaram do evento, em particular o prefeito de Cosenza, Franz Caruso, desejaram um pacto para a retomada do caminho da cidade "que encontre unidas as forças saudáveis ​​da Calábria, leigas e eclesiais, como motor de uma civilização do amor".

Na homilia da celebração eucarística, o núncio apostólico destacou que "ao abrir o jubileu deste lugar santo e abençoado, não celebramos a natureza estática das pedras deste belo templo, mas recordamos a comunidade de fiéis que celebraram em torno de seu pastor, testemunharam e anunciaram a Boa Nova do Evangelho. Estas pedras são uma lembrança daquelas "pedras vivas do edifício espiritual" que foi construída ao longo dos milênios, entre altos e baixos, na cidade e na arquidiocese de Cosenza-Bisignano". Tscherrig acrescentou: "Todo Jubileu tem um percurso duplo, é uma peregrinação dupla: é a peregrinação a Deus cruzando a porta de entrada, um caminho em direção ao homem, em saída, para encontrá-lo no mundo. Como Jesus, todos nós somos chamados a anunciar com força esta Palavra, a testemunhá-la com a nossa caridade, saindo do lugar do encontro com Deus representado por esta catedral para nos colocar a caminho e entrar no templo habitado por Deus que é a carne dos nossos irmãos, especialmente dos últimos, dos pobres e dos descartados".

O ano comemorativo que terminará em 12 de fevereiro de 2023 inclui outros eventos celebrativos, culturais, musicais e históricos que ajudarão as comunidades paroquiais e as realidades eclesiais a se tornarem peregrinas na catedral de Cosenza. Os correios italianos emitiram um selo comemorativo especial e um carimbo postal para comemorar o aniversário.

 

- Mianmar. Cardeal Bo: chega de armas, ajudem-nos a reconstruir a paz

No primeiro aniversário do golpe militar em Mianmar, 1º de fevereiro, o Cardeal Charles Bo expressa os sentimentos do povo e da Igreja, ao mesmo tempo em que lança um apelo à junta militar e à comunidade internacional.

Robin Gomes

No primeiro aniversário do golpe de Estado militar em Mianmar (01/02), os bispos católicos do país reiteram sua proximidade com o povo sofredor, exortando a Igreja e os cristãos a serem "o curador ferido" e "um instrumento de paz".  "Sentimos a sua dor, o seu sofrimento, a sua fome; compreendemos a sua desilusão; compreendemos a sua resistência", disse o Arcebispo de Yangon em Mianmar, cardeal Charles Bo, em uma mensagem enviada ao Vaticano News em vista do aniversário do golpe. "Mas para aqueles que acreditam apenas na resistência violenta dizemos: 'Existem outros meios'", disse o cardeal, que também é presidente da Conferência dos Bispos Católicos do país (CBCM).

O golpe

Com o golpe militar de Estado de 1° de fevereiro de 2021, o exército de Mianmar, liderado pelo general Min Aung Hlaing, depôs o governo eleito da Liga Nacional para a Democracia de Aung San Suu Kyi, prendendo-a junto com outros líderes eleitos. O golpe provocou protestos e greves exigindo a libertação da líder e a restauração do processo democrático. As forças de segurança da junta militar responderam com violentas represálias contra os opositores ao golpe, causando a morte de quase 1.500 manifestantes e prendendo mais de 11.700 pessoas. O golpe de Estado marcou o fim de 10 anos de reformas visando um governo democrático, após quase cinco décadas de duro governo militar.

Via-Sacra prolongada

O Cardeal Bo, que fez inúmeros apelos para um retorno pacífico ao governo civil e ao respeito aos direitos humanos e à liberdade, expressou profunda preocupação com a situação desesperada do povo. Ele descreveu o sofrimento humano sob domínio militar como uma "prolongada via-sacra, onde o Jardim do Éden se torna o Monte Calvário". De acordo com as últimas estimativas do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), acredita-se que os motins de Mianmar mergulharam quase metade dos 54 milhões de pessoas do país na pobreza, acabando com os notáveis ganhos obtidos desde 2005. Estima-se que 14 dos 15 estados e regiões já ultrapassaram o limite crítico de desnutrição aguda. O Cardeal Bo, que também é presidente da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas (FABC), descreveu a situação atual como um momento de "caos, confusão, conflito e agonia humana em perigoso crescimento". As pessoas estão vivendo em um clima de medo, ansiedade e fome: "Toda a Mianmar é uma zona de guerra", esclareceu.

Um conflito cada vez maior

O cardeal de 73 anos disse que os bispos continuam a acompanhar seu povo, "apoiando o acesso à ajuda humanitária e exortando todas as partes a trilhar um caminho de paz e reconciliação". A ofensiva militar contra os manifestantes reacendeu velhos conflitos entre os grupos rebeldes armados do país, especialmente nas regiões predominantemente cristãs habitadas pelas etnias Kachim, Chi, Karen e Kayah. Vários grupos independentes de resistência civil também surgiram em autodefesa contra as atrocidades da junta militar.

Cristãos na mira

Entre as regiões mais afetadas pelo conflito armado estão Chin, Kayah e Estados de Karen. As igrejas que ofereceram abrigo aos refugiados que fogem dos confrontos entre o exército e grupos armados estão sendo alvo, atacadas e bombardeadas pelos militares. Sacerdotes e pastores foram presos, enquanto muitos civis desarmados, inclusive cristãos, foram mortos. O conflito entre o exército e os grupos armados levou a um grande número de pessoas deslocadas no país e além de suas fronteiras. Alguns especialistas da ONU expressaram o temor de que o país pudesse entrar em uma guerra civil em plena expansão, com consequências ainda mais dramáticas. O Cardeal Bo deplorou os ataques aos lugares de culto, nos quais pessoas que procuravam refúgio eram mortas. Em particular, foi denunciado pela CBCM o massacre de pelo menos 35 civis, incluindo quatro crianças e alguns agentes humanitários, que foram mortos ou queimados vivos na véspera de Natal na aldeia de Mo Son, Estado de Keyah.

Curadores e pacificadores

Observando que os cristãos "sofreram muito" por causa do golpe, o Cardeal Bo expressou a proximidade da Igreja a eles nesta "via-sacra". "Mas como Igreja e como cristãos seguimos as orientações do Papa Francisco", disse o cardeal. "Tornemo-nos o curador ferido, sejamos um instrumento de paz; acendamos a luz da esperança no meio da escuridão frustrante"!

Para a junta militar - respeitar a liberdade e os direitos

Dirigindo-se aos líderes militares, o presidente dos bispos de Mianmar assegurou-lhes que a Igreja está comprometida com o bem maior do povo e com a resolução pacífica de todas as questões. "Temos apelado constantemente ao diálogo, à libertação dos detentos, a uma maior liberdade de expressão e ao respeito pelos direitos fundamentais de todos", explicou o cardeal, pedindo urgentemente que o acesso humanitário seja garantido para milhões de pessoas afetadas.

Não esqueçam de Mianmar

Por fim o cardeal Charles Bo lamentou que após "um período inicial de interesse, Mianmar parece ter desaparecido do radar do mundo". Ele exortou a comunidade internacional a não esquecer Mianmar e ajudar o país em sua luta pela paz. Isto pode ser feito, explicou, pondo fim ao fornecimento de armas e garantindo maior acesso humanitário aos necessitados.

Fonte: ACI Digital - Vatican News